quarta-feira, 11 de junho de 2008

Quando o arco-irís parece muito distante



Nunca me esqueci daquela história que li num livro para Guias de Patrulha: "Perguntaram a três pedreiros que construíam uma catedral, o que faziam ali. O primeiro respondeu - arrasto pedras. O segundo afirmou - ganho dinheiro para alimentar a minha família. O terceiro disse, com um sorriso e ar sonhador - construo a catedral mais bonita que o mundo já viu". Creio que nunca pensei como o primeiro pedreiro. Geralmente, penso como o segundo. Raramente consigo sentir o que sentia o terceiro. Para grande pena minha. Às vezes ponho-me a imaginar o que sentirá um escritor ao terminar um livro que irá correr o mundo nas mãos de leitores ávidos de conhecer o seu desfecho. Ou a sensação de um cineasta ao verificar como as pessoas, ao verem o seu filme, riem, choram, sustêm a respiração e no final, à saída, se mostram tocadas pela magia que sentiram naquele par de horas. Ou ainda um pintor ou um escultor, ao terminarem a sua obra-prima. Um médico ao salvar uma vida. Um político, um activista, ao lograrem implementar algo que terá um impacto positivo na vida de muitas outras pessoas. Diga-se o que se disser, na esmagadora maioria das vezes, a realização dos nossos sonhos implica fé, trabalho e a disposição para correr riscos. E às vezes sentamo-nos, embalados pelo nosso realismo, estabilidade e conforto, a olhar o arco-íris...ao longe.

domingo, 1 de junho de 2008

Línguas mortas, palavras vivas

A pequena e simples hitória que vou contar, não me foi contada, já que eu estava presente. Tratava-se de um seminário ao qual assistiam cerca de 250 pessoas. O tema era a segunda encíclica de Bento XVI, intitulada "Spe salvi". Será escusado traduzir, porque os poucos (mas bons) leitores deste blogue saberão de imediato que quer dizer "Salvos na esperança", uma vez que o latim é uma língua que dominam plenamente desde pequenos. Eu, por exemplo, lembro-me perfeitamente quando, em criança, após me ter portado mal, a minha mãe ao dar-me uma sapatada, me dizia: "a teneris consuescere multum est" (de pequenino se torce o pepino), ao que eu, choroso, respondia "ab alio spetes alteri quod feceris" (quem faz o mal, espere outro tal). O latim, hoje uma língua morta, tornou-se através da Igreja a língua dos académicos e filósofos medievais europeus e é, ainda hoje, a língua oficial da Cidade do Vaticano. Mesmo as personalidades que visitam o Vaticano falam em latim. George Bush, por exemplo. Na última visita apercebi-me perfeitamente do Santo Papa ter dito a Bush: "non in solo pane vivit homo". A que Bush respondeu, num latim fluente, com uma pequena pronúncia texana: "qui nescit dissimulare, nescit regnare". Bem, voltemos à hitória e às coisas sérias. Como já referi, do lado de baixo estavam os tais 250 leigos (termo giro, este). A presidir à sessão, dois Bispos Auxiliares. Um dos Bispos procedeu a uma dissertação sobre a encíclica e, em seguida, passou-se a um período para colocação de questões sobre o tema, que seriam respondidas seguidamente pelo Bispo. Iam as questões a meio, quando uma senhora de idade se levanta e diz: "estou com dificuldades no meu casamento. O Sr. Bispo podia-me dizer alguma coisa?" A plateia ficou silenciosa e embaraçada. Ao mesmo tempo fiquei curioso: que iria o Bispo dizer? Eu digo-vos o que disse: rigorosamente nada. Nem uma palavra. Era como se a senhora não tivesse nunca feito a pergunta ou não existisse. Pensei no que ela deverá ter sentido. Se calhar apercebeu-se de que a questão fora totalmente despropositada e ficou cheia de vergonha, pensando que não era digna sequer dum comentário. Ou então, que o seu problema era irrelevante para os outros. Confesso que esperava do Bispo outra atitude. Um simples "é preciso ter esperança" ou "falo consigo lá fora" ou "vou rezar pelo seu casamento". Mas, reflectindo melhor, se calhar esperava mesmo o silêncio. Porque a grande maioria dos mortais, há medida que sobe na hierarquia, vai-se tornando mais distante, mais importante, e já não tem tempo, nem paciência, para os pobres e os ignorantes. O seu tempo é para ser gasto com outra gente importante como eles, ou para estudar latim ou encíclicas. Confesso que nada sei de latim; pouco sei das difíceis encíclicas de Bento XVI. Mas sei que o Homem mais importante que já calcou este nosso planeta, usava parábolas para que até as crianças o entendessem e que os seus discípulos falavam línguas estrangeiras, que não conheciam, para chegarem a todos. O Homem mais importante de todos, ensinava a humildade e tinha tempo e atenção para o mais leigo dos homens. Pois como muito bem dizia o Sr. Bispo Auxiliar: "quem ama tem tempo" e sempre um gesto de atenção, acrescento eu.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Amanhã será diferente

Um escuteiro deve ser um optimista. Mas confesso que às vezes não é fácil. Lembro-me frequentemente daquela frase que li: "um pessimista é um optimista informado". Porquê este pessimismo? Porque creio que seria de esperar que fossemos sempre melhorando um pouco a nossa sociedade. E olho para o nosso país actual e comparo com a situação que tinhamos há quinze, vinte anos atrás e não vejo que tenhamos caminhado nessa direcção... O desemprego quase duplicou. Grassa entre os jovens à procura da primeira colocação e entre aqueles que, tendo perdido o emprego, têm mais de 45 anos de idade e dificilmente voltarão a reentrar no mundo do trabalho. O número de famílias sobreendividadas aumentou imenso: imagino a angústia de ter de optar entre pagar a prestação da casa ou comprar, por exemplo, os livros escolares para os filhos. Quando dantes se falava em procurar empregos com futuro, hoje fala-se da cor dos recibos (geralmente é verde). Qualquer dia, as Finanças passam a vendê-los avulso, tal é a segurança com que se pode prever o futuro laboral. Atesta-se (!?) o depósito do carro e apetece perguntar se se pode pagar em 12 prestações. O fosso salarial entre os administradores das empresas e os funcionários alargou-se de tal forma que, à sua beira, os desvios entre os valores orçados para as obras públicas e os respectivos custos reais, são já irrelevantes. A saúde e o ensino, que deveriam ser tendencialmente gratuitos, estão hoje muito mais caros. Apesar de ouvirmos falar de reformas milionárias, obtidas ao final de apenas alguns anos, de políticos, banqueiros e gestores, perguntamos se a nossa, na velhice, será suficiente para pagar os PPR`s (as Papas, os Pijamas e os Remédios). Voltamos aos tempos da emigração: agora além dos menos qualificados, partem também os recém-licenciados à procura de uma oportunidade. Até os brandos costumes que eram apanágio do nosso país parecem estar a desaparecer: carjacking, roubos com violência, tiroteios à noite entre gangues, "coças" dentro de esquadras de polícia, serial killers (sim, o que hoje foi condenado a 25 anos de cadeia por matar 4 pessoas. Nota: levou esta pena porque já tinha estado preso e não se emendou - foi o azar dos 4 assassinados! Mas não se preocupem: se tiver bom comportamento deve sair ao fim de 8 anos)...Eu sei que o mundo mudou muito nestes anos. A globalização das economias é um facto. E conseguimos alguns avanços: a nossa integração na moeda única, o controlo da inflação e do défice público (a ver vamos), as nossas exportações dependem agora menos dos sectores tradicionais. Temos algumas empresas tecnologicamente avançadas e mais jovens com cursos superiores. Mas, se avançamos, o mundo andou mais depressa do que nós e a sensação que me fica é a de que ficamos claramente para trás.
E o panorama internacional agrava, e muito, o meu pessimismo. O aumento do preço do petróleo e dos produtos alimentares pode matar milhões à fome, enquanto os fundos de investimento (nomeadamente os que especulam com os preços do arroz) e os países produtores de petróleo, conseguem lucros recorde. Enquanto o mundo se prepara para enfrentar a crise financeira gerada pelo crédito subprime, os grandes gestores dos bancos americanos (que causaram o maremoto) pensam em como gastar os seus salários milionários. Enquanto o povo do Tibete é oprimido e violentado, nós preparamo-nos para os Jogos Olímpicos. Enquanto se praticam atrocidades no Zimbabwe, nós ratificamos o Tratado de Lisboa. Enquanto examinamos as consequências incertas do aquecimento do planeta no futuro, recusamos investir em remediar as necessidades certas e urgentes no Terceiro Mundo, como o fornecimento de água potável à população. Vou-me deitar. Pode ser que acorde com outros olhos.

domingo, 13 de abril de 2008

Frutos especiais

Esta semana fui ao supermercado. Ao passar na secção dos frutos, deparei-me com uma série deles que nunca antes houvera visto. Apuruis, bacuris, muricis, graviolas (não sei se eram estes que cito e que fui buscar à net, mas já não me lembro do nome dos que vi e fica bem pôr aqui uns nomes esquisitos). E os frutos que vi eram mesmo esquisitos. Confesso que se estivesse perdido na selva tropical, era capaz de morrer de fome à beira daquelas coisas, sem que me apercebesse que eram frutos comestíveis. Porque existem frutos que só alguns reconhecem. E se em vez de vegetais, falarmos de pessoas, as coisas ainda se complicam mais! Pequenos gestos, pequenos sinais...e que descoberta podemos fazer. Mas só se soubermos o que procuramos: um lobito dos do internato, que durante todo o tempo que durou a Homilia, no Domingo das Promessas, nunca deixou de estar sentado "colado" à Diana, cabeça encostada ao seu ombro, praticamente sem se mexer, quase se vendo o carinho a fluir. A Ana J., a juntar-se, com todo o à vontade, aos mais velhos, para cantar. O Rui Q., a tocar batuque para 150 pessoas. A Joana P., tão envergonhada que era, a falar para todo o Agrupamento. O Nelson, que está tão responsável, sempre presente na Missa, sempre preocupado em transmitir-me as notas da escola. O Paulo a pendurar-se no meu pescoço para se esconder dum colega, ele que era tão distante. Dar carinho a quem precisa dele; ajudar a crescer; dar atenção a quem grita por ela; desenvolver capacidades; incentivar e responsabilizar; transmitir confiança. Quem olha de fora, acredito que não veja nada de especial. Que não veja frutos. Para quem conhece aqueles miúdos, os frutos, mesmo pequenos, são dos mais saborosos do Mundo!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ser Gente




Podem gostar de estar comigo, falar comigo, ouvir o que digo...
se não me interesso verdadeiramente pelos outros, nada sou.

Posso ser alegre, bem disposto, feliz...
se não me comover com os que sofrem, nada valho.

Posso receber presentes, flores, ser o centro das atenções...
sem dar, nada tenho.

Posso usufruir das melhores tecnologias, inventos, avanços da ciência...
se não crio, se não me reinvento para dar, nada valho.

Posso ter fama, êxito, sucesso profissional...
se não tiver humildade, nada tenho.

Posso ser inteligente, culto, considerado...
se não partilhar o que aprendi, nada sei.

Posso ser livre, frontal, dizer o que penso...
se não luto ao lado dos oprimidos, nada sou.

Posso ter dinheiro, acções e imóveis...
se não for generoso com os pobres, nada tenho.

Posso ser justo no que digo, no que penso, no que faço...
se não gritar contra as injustiças de que os outros são alvo, nada sou.

Posso ter fé, saber teologia, fazer voluntariado...
sem sentir amor, nada valho.



Dar…desinteressadamente.

Lutar…pacificamente.

Rir…conjuntamente.

Chorar…solidariamente.

Trabalhar…honradamente.

Descansar…merecidamente.

Sonhar…irresponsavelmente.

Agir…comprometidamente.

Criar… continuamente.

Triunfar…humildemente.

Ouvir…atentamente.

Falar…sinceramente.

Mentir…nunca mente.

Perdoar…incessantemente.

Amar…verdadeiramente.

Viver…apaixonadamente.

Tu podes fazer a diferença

De uma forma geral, uma gota de água tem pouca importância. Quase não a vemos, quase não a sentimos.
Mas quando muitas gotas de água se juntam, aí as coisas são diferentes: formam regatos, ribeiros, rios.
Movem moinhos, regam campos, alimentam barragens.
Mas estas mesmas gotas que, juntas, dão vida, também são capazes de destruir, em torrentes, inundações, maremotos.
Se bem que uma gota de água seja, na realidade e de uma forma geral, pouco importante, o certo é que a água que destrói ou dá vida, ajuda a nascer ou mata, nada mais é do que simples conjunto de muitas gotas de água.
Os homens também são assim. Sozinhos, de uma forma geral, são pouco importantes, em quase nada influenciam o mundo. Sozinhos, não alteram o curso das guerras, não mudam as políticas,…
Mas arrastando-se uns aos outros, os homens fazem a guerra, a paz, geram desigualdades, promovem o desenvolvimento.
Quanto à gota de água, ela não decide se faz parte de um regato, de uma torrente, de um lago ou de um maremoto.
Mas nós podemos decidir.
Decidir se somos dos que geram conflitos, ou dos que promovem a paz.
Se somos dos que olham para o outro lado quando nos pedem ajuda, ou dos que damos a mão.
Dos que têm coração duro e frio, ou daqueles cujo sorriso é reflexo da alma.
Se somos dos que nada fazem para melhorar este mundo, ou dos que todos os dias praticam uma boa-acção.
Se somos dos que calam com as injustiças ou dos que lutam contra elas.
Se somos daqueles que nada criam, nada constroem, ou dos que inventam para dar.
Se somos dos que dizem “não O conheço” ou dos que dizem “faça-se a Tua vontade”.

Para se fazer a diferença, não é preciso ser-se muito importante. Basta sermos todos os dias Escuteiros verdadeiros, comprometidos. Como nós, haverá muitos e juntos faremos um mar.

(Tema do ano 2006/2007: “Tu podes fazer a diferença”. Subtema do 2º trimestre “Muitas gotas…um oceano). VI Agrupamento Bonfim

quarta-feira, 26 de março de 2008

A imagem e a hipocrisia

Não existem palavras que batam uma simples imagem. Há anos que se fala de falta de respeito, de indisciplina nas escolas e pouco se vai fazendo para alterar a situação. Aparece na televisão um filme de uns minutos de uma aluna mal educada a lutar pelo SEU telemóvel e até o Procurador Geral da Républica intervem. Das duas uma: ou somos um país de ignorantes que só acreditamos no que vemos, ou somos uns hipócritas que só nos sentimos na obrigação de agir quando é mesmo vergonhoso não o fazer. É evidente que é grave o que aquela aluna do Carolina fez. É evidente que tem de ser punida. Parece-me também evidente que a dureza do castigo dependa de ela ter ou não antecedentes e, eventualmente, do contexto da situação: ela até poderia querer ir para a "rua" mas levar o telemóvel, que, creio, até seria SEU. E neste país ainda existe uma coisa chamada propriedade privada. Não a estou a desculpar. Deixa-me é "alucinado" a notícia, praticamente na mesma semana, das agressões que vêm sendo praticadas HÁ DOIS ANOS, na Escola Básica de Tarouca, por dois irmãos de 15 e 11 (!) anos, que têm sistematicamente desancado colegas e funcionárias (ver Público de 25/03/2008). Uma funcionária grávida ia sendo atingida na barriga por um pontapé, sendo salva por outra funcionária que levou o pontapé por ela! Os dois "estudantes" até já formaram um gangue na escola! A GNR não age porque espera queixa, as funcionárias não se queixam, ou porque têm medo de ser dispensadas por falta de competência para lidar com casos destes (as contratadas), ou porque sabem que nada acontece aos catraios por serem menores. O Presidente do Conselho Executivo diz " que a situação tem uma certa gravidade porque cria alguma instabilidade"!!! Então: a televisão é ou não uma coisa fantástica? Vê-se uma aluna mal-educada a lutar pelo seu telemóvel e o PGR quer mandá-la para uma casa de correcção. Dois menores desancam os colegas e as funcionárias e criam "alguma instabilidade". Realmente: ou as pessoas andam muito distraídas ou são mesmo hipócritas! Lembra-me aquela frase: uma boa causa, além de justa, tem de ser oportuna!