Estive a ver a entrevista da Manuela Ferreira Leite, na RTP. Perante o povo português apresentou-se um candidato ao cargo de primeiro-ministro, alguém que tem boas hipóteses de vir a liderar, nos próximos quatro anos, os destinos destes dez milhões de lusitanos à beira mar plantados.
Qual é o cenário de fundo? Um país com uma taxa de desemprego que, se for seriamente avaliada, deverá já ter ultrapassado os 10%, fracas taxas de crescimento do PIB nos últimos dez anos, um preocupante endividamento externo e um déficit orçamental que volta a disparar, após termos sido sujeitos a uma pesada carga fiscal e à perda de benefícios para que o mesmo fosse diminuído. Temos muitas famílias sobreendividadas e taxas de juro que, partindo de um indexante de pouco mais de 1%, chegam aos 5 e 6% por causa dos spreads bancários (sim, porque os bancos têm de recuperar mais rapidamente do que os outros dos efeitos da crise, para que as nossas poupanças voltem a estar seguras. Ou dito de outra forma: têm de repôr os seus níveis de rendibilidade, para cobrir as perdas causadas pela gestão imprudente e gananciosa dos seus gestores, bem como poder continuar a pagar os salários milionários que estes génios merecem). Jovens licenciados emigram à procura de uma oportunidade noutras paragens e um quinto da população é considerada pobre.
A um nível mais global, a grave crise económica parece ter "batido no fundo", aparecendo os primeiros sinais de retoma e os americanos elegeram um presidente com um slogan: "YES WE CAN!"
Mas voltemos à entrevista da nossa candidata a PM. O que seria de esperar de alguém que se propõe a liderar os nossos destinos, neste cenário? O que seria de esperar de alguém que é líder do maior partido da oposição, que é profissional da ciência política e económica?
Esperaria genica, ideias, ideais, denúncia do que foi feito de errado. Queria ver uma lista de medidas alternativas que, mesmo que não houvesse tempo para as expôr a todas, deixassem a ideia da vontade, da capacidade, do empenho em fazer algo em prol do país. Esperaria um slogan do tipo: "agora é a sério", ou "mãos à obra", ou ainda "juntos vamos conseguir".
Esperaria números, metas: "queremos reduzir o desemprego para menos de 6%","reduzir o número de pobres em 20%","aumentar o rendimento per capita em 3%",etc. Queria ouvir um compromisso: "se não atingirmos estas metas quantificadas, assumiremos o nosso falhanço".
Mas não foi a isto que assisti. Vi uma candidata sem garra, que não me empolgou minimamente. Já sabia que prefere que o investimento público não seja canalizado para os grandes projectos. Mas não ouvi mais nenhuma ideia.
De resto, nada de compromissos, nada de promessas. Apenas os "princípios"...A não ser que na realidade não queira ganhar as eleições. Mas também não precisava de exagerar!
Estamos, pois, bem tramados: vamos ter de decidir entre os que nos têm governado (deixo a análise dos resultados para a capacidade analítica de cada um), o principal partido da oposição (com toda esta garra e guerras internas), os partidos à esquerda (que querem nacionalizar a banca e os sectores estratégicos mas, quando lhes perguntam como, respondem que os pormenores teriam de ser estudados), e o partido da lavoura.
Não há por aí ninguém sério, trabalhador, competente, que consiga reunir uma equipa com estes mesmos atributos e apresente um projecto mobilizador para o país? Um projecto no qual os portugueses sintam que o contributo de cada um (professor, aluno, empresário, operário, investigador...) é importante para o desenvolvimento da nossa sociedade?
É que me dá a ideia que com estes...não vamos lá!
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Com dedicatória
Um meu amigo anda muito abatido: a namorada, com quem andava já há alguns anos, "rompeu" com ele.
Muni-me do meu melhor raciocínio lógico-dedutivo e dei-lhe os seguintes conselhos:
1- Que acabasse com o ar pesaroso com que andava. Disse-lhe que cuidasse ainda mais do "visual", que mostrasse que estava mais maduro, mais experiente, mais confiante, mais "vivido". Em paz consigo próprio. Deveria ainda exibir, de vez em quando, um sorriso misterioso. Isto tem duas vantagens: por um lado alimenta (de forma fundamentada, claro) a nossa auto-estima, lembrando-nos que estamos de novo "em campo" e, por outro lado, lança na "ex" um sentimento de dúvida (ela pensa: ...que charme tinha..., se calhar fiz asneira..., que maturidade...). Ela vai-se esquecendo dos defeitos (pequenos, claro) que tínhamos e vai começar a lembrar-se cada vez mais das nossas qualidades. Se ela andar com alguém, vai, no entretanto, ver que o novo parceiro afinal tem defeitos. Esta pequena "vingança" (ai, como somos fracos), sabe muito bem e alimenta o ego. Quanto melhor nos sentirmos, melhor este efeito resulta.
2- Afirmei (repito: afirmei) que até tinha sido melhor assim. Não disse isto de forma receosa, a ver o que dava. Argumentei que havia duas "ela": a que ele tinha idealizado e a real, que era capaz de lhe fazer uma coisa daquelas. A pessoa por quem ele se tinha apaixonado não era concerteza a mesma pessoa que agora o magoava de forma tão insensível. Não estava a perder ninguém especial. No máximo poderia estar triste porque alguém com quem tinha sonhado afinal não ser real.
3- Disse-lhe também para aproveitar avidamente estes tempos de liberdade. Estudos estatísticos demonstram que 94,53 % das pessoas bem parecidas e interessantes (que é o caso - apesar de eu não saber apreciar homens), só ficam descomprometidas por um curto periodo de tempo. Só quando se voltam a comprometer é que notam como esse tempo passou muito rapidamente e que perderam uma grande oportunidade. Há pois que "desbundar": falar a amigos que há muito não se viam, viajar, estar com os compinchas a sério, dedicar mais tempo aos escut..., (bolas, onde é o delete?), ir ao cinema, fazer ginástica, ler, pintar a casa, comprar um descapotável (que a juntar ao ar maduro e misterioso referido em 1., leva a ex ao desespero total), etc.
4- Referi-lhe ainda que os estudos referidos no ponto 3. indicam que, em 87,54% dos casos, a rapariga que se segue é bem melhor que a ex. A maturidade, a experiência acumulada, o sorriso misterioso, ajudam-nos a encontrar alguém mais à altura dos nossos desejos (o descapotável também dá uma ajuda...). Com uma grande vantagem: regressa a fase da paixão inicial, em que nos damos a conhecer ao outro e o outro a nós. Voltamos a falar dos filmes que mais gostamos, dos sítios onde gostaríamos de ir, dos livros que mais nos marcaram. Ouvimos, encantados: "não posso acreditar, é desse que também gosto mais". Histórias mil vezes contadas, ganham a frescura da primeira vez.
6- Last but not least: a vida é muito curta para a desperdiçarmos com tristezas (que além do mais não pagam as prestações do descap...pois, já sabem). Como diz a canção: "each day is a gift, not a given right, live as today was your last day".
Para terminar, falei-lhe de histórias. Das que vamos acumulando ao longo da vida. Os factos que hoje nos parecem desgraças, vão-se tranformar em emoções que nos vão moldando, enriquecendo como seres humamos com histórias para contar.
Como diz a canção da Bethânia:
"...se chorei ou se sofri
o importante é que emoções eu vivi!"
PS: as imagens da canção são foleiras, mas não arranjei melhor. A canção sim, vem a propósito e aconselho-te a trazê-la no ouvido.
sábado, 25 de abril de 2009
Um blindado no jardim


Um dia cheguei ao liceu onde andava a estudar e, ao dobrar a esquina que dava acesso à entrada principal, vi algo de espantoso: em cima do jardim estava um tanque de guerra! Só mais mais tarde me apercebi do que se estava a passar: tinha havido uma Revolução. A minha avó dizia-me que as revoluções eram coisas terríveis, nas quais vinham à superfície ódios guardados, vinganças desejadas. Mas esta revolução parecia diferente. Em vez de tiros e violência, havia sorrisos e abraços. Punham-se cravos nos canos das armas. Gritava-se "Liberdade". Cantava-se, e nas canções haviam palavras que se repetiam: paz, pão, povo...e liberdade.
Os dias que se seguiram foram intensos. A vida das pessoas mudou. Passou a haver liberdade para se dizer o que se queria. Deixaram de haver livros proíbidos, filmes que não podiam ser vistos, canções que não se podiam cantar. Pessoas que estavam presas por dizer o que pensavam, foram libertadas. Os exilados políticos regressavam. E, para os jovens que andavam no liceu, como eu, o espectro de matar ou morrer numa guerra injusta, finalmente desaparecia. O medo desaparecia da sociedade.
Vencida a luta pela liberdade, era tempo de se escolher um modelo de sociedade. Nasciam partidos políticos. Acreditavamos que iríamos mudar o país. Misturava-se vontade, oportunidade, ingenuidade. Lembro-me que, na altura com 15 ou 16 anos, simpatizava com a FEC (ML) - Frente Eleitoralista Comunista, marxista - leninista! Com uma boa amiga, mais velha um ano, discutia as diferenças entre o MRPP e o PCP. Entre o verdadeiro marxismo e a política imperialista da URSS. Escrevia, na carteira de couro, palavras de ordem: não ao imperialismo, a terra a quem a trabalha...
As conquistas de Abril são inegáveis: a paz, a liberdade, o direito à justiça, à saúde, à educação. Para os mais novos ou para os mais esquecidos, podem parecer coisas elementares. Quem vive sem elas, sabe dar-lhes o real valor.
Mas Abril prometia mais: prometia uma sociedade em que o fosso entre os salários mais humildes e os daqueles que são melhor remunerados, não fosse o maior da UE. Prometia um país sem corruptos nos cargos públicos. Um país que não tivesse dois milhões de pobres. Um país em que os jovens encontrassem emprego. Um país em que os agricultores cultivassem a terra e os pescadores pescassem, em vez de receberem subsídios para estarem de braços cruzados. Prometia um país que atribuísse reformas justas aos seus cidadãos e não um país que dá reformas milionárias a banqueiros e políticos e de miséria aos mais humildes.
À vontade, oportunidade, generosidade e ingenuidade de Abril, foi-se juntando o cinismo, o egoísmo e o oportunismo. E se calhar fomos nós, a geração de Abril, quem mais falhou.
Celebremos, com alegria, as conquistas da Revolução dos Cravos.
Mas fica a nostalgia do que ficou por cumprir...
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Escutismo
Às vezes acontece-me, ao falar, ter dificuldade em organizar diversas ideias, de forma a dizer o que quero, de uma maneira clara, simples, eficiente. É mais fácil quando se escreve: tem-se tempo para pensar, apagar o que está mal e voltar a escrever. E mesmo assim muitas vezes não se obtem o resultado desejado.
O Escutismo tem sido uma parte importante da minha vida. Creio poder dizer que a terá mudado substancialmente. Ao longo de mais de 30 anos fiz um pouco de tudo: pata tenra, guia e sub-guia de patrulha, chefe de exploradores, pioneiros, caminheiros, presidente da comissão fiscalizadora regional, chefe de agrupamento. Nunca fui candidato a nada, nem nunca vi qualquer cargo como reconhecimento de coisa alguma, ou de evolução: apenas, em cada altura, era preciso dizer sim. Tive um bom exemplo, o do Mário Leite. Com ele aprendi a magia do escutismo e vi um dirigente criativo, simples, amigo, sem outra ambição que não fosse estar ao serviço dos jovens. Quando eu preparava uma reunião para os exploradores e lhe mostrava o plano, lá vinha a pergunta "e o sumo? o que lhes queres transmitir?". Acima de tudo coerente: vive de acordo com o que prega. Ah...aprendi também a andar mal uniformizado.
Com ele terá nascido uma certa filosofia de ser Bonfim, tendo as equipas de caminheiros um papel muito importante na vida do agrupamento. O essencial é a formação dos jovens e a transmissão dos valores do movimento. Ajudar os miúdos a serem homens de fé, felizes, solidários, criativos, responsáveis. Nós, os mais velhos, apenas estamos enquanto formos precisos. E agora é tempo de ser preciso um novo chefe de agrupamento.
Quero só passar para o papel (!) algumas convicções sobre o escutismo e como vejo o ser dirigente:
1- A nossa Lei diz " o escuta É... leal... honrado... puro... irmão... útil...". Não diz "deve ser". Será utópico pensar então que as equipes directivas, ao nível de secções, agrupamentos, núcleos, regiões, etc., devem ser exemplo de harmonia, dedicação, humildade e partilha? Funcionando sem necessidade de "galões", hierarquias e reprimendas? Liderando, no necessário, aquele que está, no momento, mais disponível, mais "inspirado", com maior capacidade de entrega? Dir-me-ão: "isso só numa sociedade ideal". Mas não é isso mesmo que o escutismo prega? Andamos a dizer aos miúdos para seguirem o exemplo dos patronos (santos) e vemos agrupamentos, núcleos e regiões onde existem lutas por cargos, tal como na política ou nas empresas. Onde está a diferença do "modo de ser escutista"?
2- Ser dirigente exige que se crie, que se invente para dar. Um dirigente é um formador de jovens. Exigem-se capacidades (manuais, ou culturais, ou intelectuais, sempre...humanas). São os "talentos" que se têm de pôr a render. Não é só pôr os miúdos a cantar aquela canção, ou a fazer o jogo que alguém inventou. É escrever novas histórias, é inventar jogos nunca jogados, é criar novas canções, construir dragões...
3- Ser dirigente às vezes dói. Não basta dar o que se tem, quando se pode. Às vezes dá-se o que se não tem, quando não se pode. Fazem-se sacrifícios, porque é preciso. Porque o acampamento tem de acontecer, porque não posso faltar à reunião, porque tenho de ir àquela missa, apesar de dar o jogo que decide o campeonato. Em casa, exige-se trabalho de inspiração e transpiração: têm de se levar ideias para o jogo, temos de estudar o tema do debate, é preciso fazer o guião das promessas. O dirigente não anda no escutismo porque gosta. Anda porque tem uma MISSÃO.
4- B.P. dizia que, se tivesse de escolher um cargo no escutismo, escolheria o de guia de patrulha. A mim faz-me um bocado de confusão as ambições de alguns, cujo objectivo maior é ser chefe de núcleo ou regional. Sempre vi o escutismo como uma pirâmide invertida: em cima, estão os mais importantes - os lobitos, os exploradores, etc. Em baixo, os dirigentes, que só existem em função dos outros.
5- Ser dirigente exige coerência. Não podemos falar do Homem Novo e não sermos católicos (o praticante é redundante). Não pudemos falar de pureza e dizer palavrões. Não pudemos falar de higiene e não pegar numa vassoura quando o chão está sujo. Não podemos falar de serviço ao próximo e não aparecer sempre que o agrupamento chama. Ou então seremos dos que dizem que uma causa, além de justa, deve ser oportuna. Os jovens devem poder tomar-nos como exemplo: não só das nossas palavras, mas sobretudo das nossas acções.
6- Um agrupamento vivo e saudável deve gerar adultos dispostos a dizerem "sim, aceito" quando de servir se trata. Gente que esteja disponível para servir, por exemplo, como chefe de agrupamento, com humildade, com vontade de melhorar o que está mal e de manter o que de bom se faz. Que saiba ser garante da continuidade da instituição, mesmo com sacrifício pessoal. Que seja capaz de compromissos e rupturas. Mas sempre à imagem de B.P..
Enfim, como diz a oração: "ser generoso, dar-me sem medida, gastar-me sem esperar outra recompensa que não seja saber que faço a Vossa (não a minha) vontade".
É difícil? É.
Conseguimos? Às vezes.
Mas devemos tentar, sempre da melhor vontade!
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Will you stand by me?
Já Obélix, figura histórica incontornável, o dizia: "estes humanos são loucos!". Somos peritos a criticar: a ganância dos ricos, a desonestidade dos políticos, a falta de solidariedade do vizinho, a antipatia do chefe ou do professor, a falta de civismo dos condutores, a falta de atenção ou delicadeza, para connosco, do amigo...
Mas quando se trata de analisar as nossas falhas, aí o juíz mostra-se muito mais brando e condescendente. Nos outros, as falhas, mesmo as pequenas, são reveladoras do verdadeiro caracter do personagem. Em nós, são fruto das circunstâncias adversas, do cansaço e do stress, ou a resposta condigna a uma provocação indigna.
Já perdi a conta às vezes que não fui a casa de um amigo que precisava da minha companhia, porque não tive tempo. Que não disse o que era justo ser dito, porque pesei as consequências para o meu bem estar. Que não dei, com medo que me viesse a fazer falta. Que fui indelicado, porque estava zangado. Que critiquei, por me sentir moralmente superior. Que não estive dísponível quando fui preciso, simplesmente porque não me apeteceu.
E este sou eu, candidato por mérito próprio a um mundo ideal, onde não seriam necessárias leis ou hierarquias, porque todos seríamos perfeitos, ou quase...
Na nossa "loucura", somos todos diferentes: uns privilegiam o dinheiro e o poder, outros a carreira ou a família, outros, ainda, o equilíbrio ou um "dolce fare niente". As falhas de uns serão concerteza maiores do que as doutros. Da mesma forma, os méritos. Mas sejamos quem sejamos, quaisquer que sejam as nossas motivações e os nossos objectivos, todos ansiamos uma coisa: ter amigos que, incondicionalmente, irreverentemente, firmemente...fiquem ao nosso lado...apesar dos nossos defeitos.
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